Numa guerra, a primeira vítima é, invariavelmente, a verdade. Não é diferente no caso da CPMF. Governo e oposição trombeteiam vitória. Para prevalecer sobre os adversários, o Planalto precisa anotar no painel eletrônico do Senado pelo menos 49 votos. Para melar o triunfo de seu rival, a oposição precisa dispor de 33 votos. A composição do Senado é inelástica. Há na Casa 81 senadores. Portanto, alguém está mentindo. Para quem observa de longe, é inútil tentar identificar os mentirosos. Até porque todos são. Nos corredores do Congresso, a arte da mentira desenvolveu-se de tal forma que todos acreditam em si mesmos e ninguém acredita em ninguém.
Como previsto, PSDB e DEM realizaram nesta quarta-feira (28) uma reunião com os dissidentes do consórcio governista. Acorreram ao encontro cinco senadores filiados a legendas enganchadas no Planalto: Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), Mão Santa (PMDB-PI), Romeu Tuma (PTB-SP) e Expedito Júnior (PR-RO).
Somando-se esse naco de dissidentes à tropa oposicionista, de 27 senadores, chega-se a 32 votos. Com mais um, a CPMF iria, em tese, para o beleléu. E, a julgar pelos dados precários disponíveis, tucanos e ‘demos’ dispõem de mais votos. Para citar apenas dois exemplos: César Borges (PR-BA) e José Nery (PSOL-PA).
O que faz dos números da oposição uma mentira à espera de comprovação é a desconfiança com que os próprios líderes tucanos enxergam a convicção de alguns de seus supostos aliados. Por trás da suspeita esconde-se um detalhe funesto: a própria oposição admite que alguns de seus "soldados" carregam, no mais profundo recôndito da alma, um caráter capaz de sensibilizar-se com o tilintar de verbas e dos cargos.
De todo modo, a mentira da oposição, por ora uma verdade pendente de comprovação, leva sobre a mentira do governo uma grande vantagem: é uma mentira com rosto. Os votos supostamente contrários à CPMF têm cara. Apresentaram-se à luz dos holofotes no par de reuniões que a oposição logrou realizar.
A mentira do governo não tem, por ora, densidade de carne e osso. Em privado, Romero Jucá (PMDB-RR), líder de Lula no Senado, diz que o governo não dispõe senão de 33 votos absolutamente seguros. A conta subiu para 34 nesta quarta, com a adesão de Cristovam Buarque (PDT-DF). De resto, falta cara à conta que Jucá ostenta em público. Ou, por outra, a contabilidade do líder governista tem a face difusa de um governista padrão –um senador que condiciona as suas convicções à capacidade do governo de atender às suas pretensões.
Fonte: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/#2007_11-29_02_25_07-10045644-0
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